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Thiago de Mello |
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| A rosa branca |
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Não me inquieta se o caminho que me coube - por secreto desígnio - jamais floresce. Dentro de mim, sei que existe, oculta, uma rosa branca. Incólume rosa. E branca.
Não pude colhê-la: mal nascera e logo perdi-me nos labirintos do tempo, onde desde então pervago apenas entressonhando aquilo que sou - e vive no recôncavo da rosa.
Sem conhecer-me, padeço o mistério de existir em amargo desencontro comigo mesmo. No entanto, pesar tão largo se apaga quando pressinto: na rosa, mistério não há. Nenhum. Sem medo de trair-me a face, posso morrer amanhã. Extinto o jugo do tempo, olhos nem boca haverá - para a queixa e para a lágrima - se em vez de rosa, de pétala cinza de pétala, apenas existir a escuridão. O vazio. Nada mais. |
| Arte de amar |
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Não faço poemas como quem chora, nem faço versos como quem morre. Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira quando muito moço; achava que tinha os dias contados pela tísica e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor. É a mesma luta suave e desvairada enquanto a rosa orvalhada se vai entreabrindo devagar. A gente nem se dá conta, até acha bom, o imenso trabalho que amor dá para fazer.
Perdão, amor não se faz. Quando muito, se desfaz. Fazer amor é um dizer (a metáfora é falaz) de quem pretende vestir com roupa austera a beleza do corpo da primavera. O verbo exato é foder. A palavra fica nua para todo mundo ver o corpo amante cantando a glória do seu poder. |
| As ensinanças da dúvida |
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Tive um chão (mas já faz tempo) todo feito de certezas tão duras como lajedos.
Agora (o tempo é que fez) tenho um caminho de barro umedecido de dúvidas.
Mas nele (devagar vou) me cresce funda a certeza de que vale a pena o amor |
| A vida verdadeira |
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Quando acariciei o teu dorso, campo de trigo dourado, minha mão ficou pequena como uma flor de açucena que delicada desmaia sob o peso do orvalho.
Mas meu coração cresceu e cantou como um menino deslumbrado pelo brilho estrelado dos teus olhos. |
| Los Estatutos del Hombre |
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Artículo 1 Queda decretado que ahora vale la vida, que ahora vale la verdad, y que de manos dadas trabajaremos todos por la vida verdadera
Artículo 2 Queda decretado que todos los días de la semana, inclusive los martes más grises, tienen derecho a convertirse en mañanas de domingo.
Artículo 3 Queda decretado que, a partir de este instante, habrá girasoles en todas las ventanas, que los girasoles tendrán derecho a abrirse dentro de la sombra; y que las ventanas deben permanecer el día entero abiertas para el verde donde crece la esperanza.
Artículo 4 Queda decretado que el hombre no precisará nunca más dudar del hombre. Que el hombre confiará en el hombre como la palmera confía en el viento como el viento confía en el aire como el aire confía en el campo azul del cielo. Parágrafo único: El hombre confiará en el hombrecomo un niño confía en otro niño.
Artículo 5 Queda decretado que los hombres están libres del yugo de la mentira. Nunca más será preciso usar la coraza del silencio ni la armadura de las palabras. El hombre se sentará a la mesa con la mirada limpia, porque la verdad pasará a ser servida antes del postre.
Artículo 6 Queda establecida, durante diez siglos, la práctica soñada del profeta Isaías, el lobo y el cordero pastarán juntos y la comida de ambos tendrá el mismo gusto a aurora.
Artículo 7 Por decreto irrevocable queda establecido el reinado permanente de la justicia y de la claridad. Y la alegría será una bandera generosa para siempre enarbolada en el alma del pueblo.
Artículo 8 Queda decretado que el mayor dolor siempre fue y será siempre no poder dar amor a quien se ama, sabiendo que es el agua quien da a la planta el milagro de la flor.
Artículo 9 Queda permitido que el pan de cada día tenga en el hombre la señal de su sudor. pero que sobre todo tenga siempre el caliente sabor de la ternura.
Artículo 10 Queda permitido a cualquier persona a cualquier hora de la vida el uso del traje blanco.
Artículo 11 Queda decretado, por definición, que el hombre es un animal que ama, y que por eso es bello, mucho más bello que la estrella de la mañana.
Artículo 12 Decrétase que nada estará obligado ni prohibido. Todo será permitido. Inclusive jugar con los rinocerontes, y caminar por las tardes con una inmensa begonia en la solapa. Parágrafo único: Sólo una cosa queda prohibida: amar sin amor.
Artículo 13 Queda decretado que el dinero no podrá nunca más comprar el sol de las mañanas venideras. Expulsado del gran baúl del miedo, el dinero se transformará en una espada fraternal, para defender el derecho de cantar y la fiesta del día que llegó.
Artículo final Queda prohibido el uso de la palabra libertad, la cual será suprimida de los diccionarios y del pantano engañoso de las bocas. A partir de este instante la libertad será algo vivo y transparente, como un fuego o un río, o como la semilla del trigo y su morada será siempre el corazón del hombre.
Traducción de Pablo Neruda |
| Memória da esperança |
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Na fogueira do que faço por amor me queimo inteiro. Mas simultâneo renasço para ser barro do sonho e artesão do que serei. Do tempo que me devora me nasce a fome de ser. Minha força vem da frágil flor ferida que se entreabre resgatada pelo orvalho da vida que já vivi. Qual a flama que darei para acender o caminho da criança que vai chegar? Não sei. Mas sei que já dança, canção de luz e sombra, Na memória da esperança. |
| Narciso cego |
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Tudo o que de mim se perde acrescenta-se ao que sou. Contudo, me desconheço. Pelas minhas cercanias passeio - não me freqüento.
Por sobre fonte erma e esquiva flutua-me íntegra, a face. Mas nunca me vejo: e sigo com face mal disfarçada. Oh que amargo é o não poder rosto a rosto contemplar aquilo que ignoto sou; distinguir até que ponto sou eu mesmo que me levo ou se um nume irrevelável que (para ser) vem morar comigo, dentro de mim, mas me abandona se rolo pelos declives do mundo.
Desfaço-me do que sonho: faço-me sonho de alguém oculto. Talvez um Deus sonhe comigo, cobice o que eu guardo e nunca usei.
Cego assim, não me decifro. E o imaginar-me sonhado não me completa: a ganância de ser-me inteiro prossegue. E pairo - pânico mudo - entre o sonho e o sonhador. |
| Notícia da manhã |
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Eu sei que todos viram e jamais esquecerão. Mas é possível que alguém, denso de noite, estivesse profundamente dormido. E aos dormidos - e também aos que estavam muito longe e não puderam chegar, aos que estavam perto e perto permaneceram sem vê-la; aos moribundos nos catres e aos cegos de coração - a todos que não a viram contratei desta manhã - manhã é céu derramado é cristal de claridão - que reinou, de leste a oeste, de morro a mar - na cidade.
Pois dentro desta manhã vou caminhando. E me vou tão feliz como a criança que me leva pela mão. Não tenho nem faço rumo: vou no rumo da manhã, levado pelo menino ( ele conhece caminhos e mundos, melhor do que eu) .
Amorosa e transparente, esta é a sagrada manhã que o céu inteiro derrama sobre os campos, sobre as casas, sobre os homens, sobre o mar. Sua doce claridade já se espalhou mansamente por sobre todas as dores. Já lavou a cidade. Agora, vai lavando corações ( não o do menino; o meu, que é cheio de escuridões ) .
Por verdadeira, a manhã vai chamando outras manhãs sempre radiosas que existem ( e às vezes tarde despontam ou não despontam jamais) dentro dos homens e das coisas: na roupa estendida à corda, nos navios chegando, nas torres das igrejas, nos pregões dos peixeiros, na serra circular dos operários, nos olhos da moça que passa, tão bonita! A manhã está no chão, está nas palmeiras, está no quintal dos subúrbios, está nas avenidas centrais, está nos terraços dos arranha-céus. ( Há muita, muita manhã no menino; e um pouco em mim. )
A beleza mensageira desta radiosa manhã não se resguardou no céu nem ficou apenas no espaço, feita de sol e de vento, sobrepairando a cidade. Não: a manhã se deu ao povo.
A manhã é geral.
As árvores da rua, a réstia do mar, as janelas abertas, o pão esquecido no degrau, as mulheres voltando da feira, os vestidos coloridos, o casal de velhos rindo na calçada, o homem que passa com cara de sono, a provisão de hortaliças, o negro na bicicleta, o barulho do bonde. Os passarinhos namorando - ah! pois todas essas coisas que minha ternura encontra num pedacinho de rua, dão eterno testemunho da amada manhã que avança e de passagem derrama aqui uma alegria, ali entrega uma frase ( como o dia está bonito! ) à mulher que abre a janela, além deixa uma esperança, mais além uma coragem, e além, aqui e ali pelo campo e pela serra, aos mendigos e aos sovinas, aos marinheiros, aos tímidos, aos desgarrados, aos prósperos, aos solitários, aos mansos, às velhas virgens, às puras e às doidivanas também, a manhã vai derramando ama alegria de viver, vai derramando um perdão, vai derramando uma vontade de cantar.
E de repente a manhã - manhã é céu derramado, é claridão, claridão - foi transformando a cidade numa praça imensa praça, e dentro da praça o povo o povo inteiro cantando, dentro do povo o menino me levando pela mão |
| O cajueiro ensinado |
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Por medo de perder pouco, acabaste te perdendo. Não quiseste te dar todo e terminaste sem nada. Não sentiste o ferrão feio cavando devagarinho o fundo verde do peito. ( Por que era verdade. Tu sabes. ) Nem sequer te perguntaste porque as janelas se foram fechando no teu olhar. Ainda podes caminhar, quando anoitece demais, debaixo dos cajueiros. Mas as suas flores tenras não te reconhecem mais. Suas folhas orvalhadas se esqueceram do teu nome e mal relembram o teu riso que era uma festa de infância. Sem embargo, falas forte, te vestes de opaca azul, atravessas a avenida, ris alto e muito: animal balofo e só, meu irmão. |
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Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo. Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança. Artigo IV Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino. Artigo V Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa. Artigo VI Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. Artigo VII Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo. Artigo VIII Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor. Artigo IX Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura. Artigo X Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco. Artigo XI Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã. Artigo XII Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor. Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal Artigo Final. Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964
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| Para os que virão |
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Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro. Sabendo que não vou ver o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente para não enganar a ninguém: principalmente aos que sofrem na própria vida, a garra da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras. Sou simplesmente um homem para quem já a primeira e desolada pessoa do singular - foi deixando, devagar, sofridamente de ser, para transformar-se - muito mais sofridamente - na primeira e profunda pessoa do plural.
Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar.
É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos. Se trata de ir ao encontro. ( Dura no peito, arde a límpida verdade dos nossos erros. ) Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando. |
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A morte é indolor. O que dói nela é o nada que a vida faz do amor. Sopro a flauta encantada e não dá nenhum som. Levo uma pena leve de não ter sido bom. E no coração, neve. |
| Quem é quem |
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Posso dizer: estou pronto para me dar ao que vier. Posso errar, mas não por medo de me ser no que fizer. Quem me pode responder que sabe ser, sendo inteiro fiel e simples, sendo a tudo que faz e não quer fazer? |
| Silêncio e palavra |
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I A couraça das palavras protege o nosso silêncio e esconde aquilo que somos
Que importa falarmos tanto? Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras. Sons vazios de mensagem, são como a fria mortalha do cotidiano morto. Como pássaros cansados, que não encontraram pouso certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem: o tempo madura os frutos, branqueia nossos cabelos. Mas o homem noturno espera a aurora da nossa boca. II Se mãos estranhas romperem a veste que nos esconde, acharão uma verdade em forma não revelável. (E os homens têm olhos sujos, não podem ver através.)
Mas um dia chegará em que a oferenda dos deuses, dada em forma de silêncio, em palavra transfaremos.
E se porventura a dermos ao mundo, tal como a flor que se oferta - humilde e pura - , teremos então cumprido a missão que é dada ao poeta. E como são onda e mar, seremos palavra e homem. |
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Sei que é preciso sonhar.
Campo sem orvalho, seca A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do vôo perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva cresce em sonho no sereno para não ser relva apenas, mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha se não crescer incrustado no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca que o sol do sonho se arraste pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando o sonho e inventando o chão para o sonho florescer". |
| Temo por meus olhos |
Temo por meus olhos diante das puras vestes. E no entretanto, desejo.
Temor que sugere o epílogo de ser cântaro partido ao lado de fonte pródiga.
A não contemplar, prefiro definitiva cegueira.
Não como os homens cegos, mas como os pés das crianças que são cegos, caminhando. |
Material recolhido em |
Thiago de Mello
Vento Geral - Poesia 1951/1981 Editora Civilização Brasileira - 1984 |
® Romero Tavares da Silva