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Manoel Bandeira

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Antologia Arte de amar
Assim a vida nos afeiçoa Do que me dissestes...
No vosso e em meu coração Nu
O bicho Poemeto erótico
Recife Testamento
Vou-me embora pra Passárgada
                          
                        

Antologia

 

A vida não vale a pena e a dor de ser vivida.

Os corpos se entendem mas as almas não.

A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 

Vou-me embora pra Passárgada!

Aqui não soi feliz.

Quero esquecer tudo:

- A dor de ser homem...

Este anseio infinito e vão

De possuir o que me possui.

 

Quero descansar

Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...

Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

 

Quero descansar.

Morrer.

Morrer de corpo e alma.

Completamente.

(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir)

 

Quando a Indesejada das gentes chegar

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

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Arte de amar

 

Se queres sentir a felicidade de amar,

Esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação.

Não noutra alma.

Só em Deus - ou fora do mundo.

 

As almas são incomunicáveis.

Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo,

porque os corpos se entendem, mas as almas não

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Assim a vida nos afeiçoa

 

Se fosse dor tudo na vida,

Seria a morte o sumo bem.

Libertadora apetecida,

A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - Vem!

...

E a vida vai tecendo laços,

Quase impossíveis de romper:

Tudo que amamos são pedaços

vivos de nosso próprio ser

 

A vida assim nos afeiçoa,

Prende. Antes fosse toda fel!

Que ao mostrar às vezes boa,

Ela requinta em ser cruel...

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Do que me dissestes...

 

Do que me dissestes, alma fria,

Já nada vos acode mais?...

Éramos sós... Fora chovia...

Quanta ternura em mim havia

(Em vós também... Porque o negais?)

 

Hoje contudo nem me olhais...

Pobre de mim! Porque seria?

Acaso arrependida estais

Do que dissestes?

 

É bem possível que o estejais...

O amor é coisa fugidia...

Eu, no entretanto, que em tal dia

Gozei momentos sem iguais,

Eu não me esquecerei jamais

Do que me dissestes.

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No vosso e em meu coração
 

Espanha no coração

No coração de Neruda,

No vosso e em meu coração.

Espanha da liberdade,

Não a Espanha da opressão.

Espanha republicana:

A Espanha de Franco, não!

Velha Espanha de Pelaio,

Do Cid, do Grã-Capitão!

Espanha de honra e verdade,

Não a Espanha da traição!

Espanha de Dom Rodrigo,

Não a do Conde Julião!

Espanha republicana:

A Espanha de Franco, não!

 

Espanha dos grandes místicos,

Dos santos poetas, de João

Da Cruz, de Teresa de Ávila

E de Frei Luís de Leão!

Espanha da livre crença,

Jamais a da Inquisição!

Espanha de Lope e Góngora,

De Góia e Cervantes, não

A de Felipe II

Nem Fernando, o balandrão!

Espanha que se batia

Contra o corso Napoleão!

 

Espanha da liberdade:

A Espanha de Franco, não!

Espanha republicana,

Noiva da Revolução!

Espanha atual de Picasso,

De Casals, de Lorca, irmão

assassinado em Granada!

Espanha no coração

De Pablo Neruda, Espanha

No vosso e em meu coração! 

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Nu
 

Quando estás vestida,

Ninguém imagina

Os mundos que escondes

Sob as tuas roupas.

 

(Assim, quando é dia,

Não temos a noção

Dos astros que luzem

No profundo céu.)

 

Mas a noite é nua,

E, nua na noite,

Palpitam teus mundos

E os mundos da noite.

 

Brilham os teus joelhos,

Brilha o teu umbigo.

Brilha toda a tua

Lira abdominal.

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O bicho
 

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

 

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

 

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

 

O bicho, meu Deus, era um homem.

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Poemeto erótico
 

Teu corpo claro e perfeito,

- Teu corpo de maravilha,

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha...

 

Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa... flor de laranjeira...

 

Teu corpo, branco e macio,

É como um véu de noivado...

 

Teu corpo é pomo doirado...

 

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume...

 

Teu corpo é a brasa do lume...

 

Teu corpo é chama e flameja

Como à tarde os horizontes...

 

É puro como nas fontes

A água clara que serpeja,

Que em cantigas se derrama...

 

Volúpia da água e da chama...

 

A todo momento o vejo...

Teu corpo... a única ilha

No oceano do meu desejo...

 

Teu corpo é tudo o que brilha,

Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa, flor de laranjeira...

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Recife
 

Há quanto tempo que não te vejo!

Não foi por querer, não pude.

Nesse ponto a vida me foi madrasta,

Recife.

 

Mas não houve dia em não te sentisse dentro de mim:

Nos ossos, nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne,

Recife.

 

Não como és hoje,

Mas como eras na minha infância,

Quando as crianças brincavam no meio da rua

(Não havia ainda automóveis)

E os adultos conversavam de cadeira nas calçadas

(Continuavas província,

Recife).

 

Eras um Recife sem arranha-céus, sem comunistas,

sem Arrais, e com arroz,

Muito arroz,

De água e sal,

Recife.

 

Um Recife ainda do tempo em que o meu avô materno

Alforriava espontaneamente

A moça preta Tomásia, sua escrava,

Que depois foi a nossa cozinheira

Até morrer,

Recife.

 

Ainda existirá a velha casa senhorial do Monteiro?

Meu sonho era acabar morando e morrendo

Na velha casa do Monteiro.

Já que não pode ser,

Quero na hora da morte, estar lúcido

Para te mandar a ti o meu último pensamento,

Recife.

 

Ah Recife, Recife, non possidebis ossa mea!

Nem os ossos nem o busto,

Que me adianta um busto depois de eu morto?

Depois de morto não me interesará senão, se possível,

Um cantinho no céu,

"Se o não sonharam", como disse o meu querido João de Deus,

Recife.

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Testamento
 

O que não tenho e desejo

É que melhor me enriquece.

Tive uns dinheiros - perdi-os...

Tive amores - esqueci-os.

Mas no maior desespero

Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.

Por outras terras andei.

Mas o que ficou marcado

No meu olhar fatigado,

Foram terras que inventei.

 

Gosto muito de crianças:

Não tive um filho de meu.

Um filho!... Não foi de jeito...

Mas trago dentro do peito

Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino

Para arquiteto meu pai.

Foi-se-me um dia a saúde...

Fiz-me arquiteto? Não pude!

Sou poeta menor, perdoai!

 

Não faço versos de guerra.

Não faço porque não sei.

Mas num torpedo-suicida

Darei de bom grado a vida

Na luta em que não lutei!

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Vou-me embora pra Passárgada
 

Vou-me embora pra Passárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Passárgada

 

Vou-me embora pra Passárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que eu nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

 

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Passárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

Lá sou amigo do rei

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Passárgada

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Material recolhido em

Bandeira

Poesias Reunidas - Estrela da Vida Inteira

Livraria José Olympio Editora - 1980

 

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® Romero Tavares da Silva