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Luís Vaz de Camões

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Alma minha gentil, que te partiste

Amor é um fogo que arde sem se ver

Enquanto quis Fortuna que tivesse

Eu cantarei de amor tão docemente

Mudam-se os tempos

 O fogo que na branda cera ardia

Quem diz que o Amor é falso

Sete anos de pastor Jacó servia

                      
                        

Alma minha gentil, que te partiste

 

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida descontente,

Repousa lá no Céu eternamente,

E viva eu cá na terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memória desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente

Que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E se vires que pode merecer-te

Alguma cousa a dor que me ficou

Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

 

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

Quão cedo de meus olhos te levou.

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Amor é um fogo que arde sem se ver

 

Amor é um fogo que arde sem se ver,

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente,

É dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

É um andar solitário entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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Enquanto quis Fortuna que tivesse

 

Enquanto quis Fortuna que tivesse

Esperança de algum contentamento,

O gosto de um suave pensamento

Me fez que seus efeitos escrevesse.

 

Porém, temendo Amor que aviso desse

Minha escritura a algum juízo isento,

Escureceu-me o engenho co tormento,

Pera que seus enganos não dissesse.

 

Ó vos que Amor obriga a ser sujeitos

A diversas vontades! Quando lerdes

Num breve livro casos tão diversos,

 

Verdades puras são e não defeitos;

E sabei que, segundo o amor tiverdes,

Tereis o entendimento de meus versos.

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Eu cantarei de amor tão docemente

 

Eu cantarei de amor tão docemente,

Por uns têrmos em si tão concertados,

Que dois mil acidentes namorados

Faça sentir ao peito que não sente.

 

Farei que amor a todos avivente,

Pintando mil segredos delicados,

Brandas iras, suspiros magoados,

Temerosa ousadia e pena ausente.

 

Também, Senhora, do desprêzo honesto

De vossa vista branda e rigorosa,

Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

 

Porém, para cantar de vosso gesto

A composição alta e milagrosa,

Aqui falta saber, engenho e arte.

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Mudam-se os tempos

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o Mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

 

E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía.

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O fogo que na branca cera ardia

 

O fogo que na branda cera ardia,

Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo,

Se acendeu de outro fogo do desejo,

Por alcançar a luz que vence o dia.

 

Como de dous ardores se incendia,

Da grande impaciência fez despejo,

E, remetendo com furor sobejo,

Vos foi beijar na parte onde se via.

 

Ditosa aquela flama, que se atreve

A apagar seus ardores e tormentos

Na vista de que o mundo tremer deve!

 

Namoram-se, Senhora, os Elementos

De vós, e queima o fogo aquela neve

Que queima corações e pensamentos.

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Quem diz que o Amor é falso
 

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,

ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,

Sem falta lhe terá bem merecido

Que lhe seja cruel ou rigoroso.

 

Amor é brando, é doce e é piedoso;

Quem o contrário diz não seja crido:

Seja por cego e apaixonado tido,

E aos homens e inda aos deuses odioso.

 

Se males faz Amor, em mi se vêem;

Em mim mostrando todo o seu rigor,

Ao mundo quis mostrar quanto podia.

 

Mas todas suas iras são de amor;

Todos estes seus males são um bem,

Que eu por todo outro bem não trocaria.

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Sete anos de pastor Jacó servia

 

Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel serrana bela,

Mas não servia ao pai, servia a ela,

Que a ela só por prêmio pertendia.

 

Os dias na esperança de um só dia

Passava, contentando-se com vê-la:

Porém o pai usando de cautela,

Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

Assim lhe era negada a sua pastora,

Como se a não tivera merecida,

 

Começou a servir outros sete anos,

Dizendo: Mais servira, se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida.

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Material recolhido em

Luís de Camões

Poesia Completa

Editora Nova Aguilar - 1988

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® Romero Tavares da Silva